domingo, 20 de agosto de 2017

Pra não dizer que não falei das flores


Tem sido um inverno difícil. Eu sinceramente não me lembro da última vez que me senti assim. Inquieto, incompleto, inconstante. Como se nada fosse capaz de me satisfazer. Nem o café fresco na manhã de domingo, nem o conforto da minha cama ao fim do dia. Para falar a verdade, o que eu ando fazendo à noite também não pode ser chamado de “dormir”. E nem de algo mais divertido de se fazer em uma cama. Eu só fico deitado, acordado, em alerta. Na esperança de que o barulho de mensagem nova no celular me chamasse, avisando que alguém se lembrou de mim. E que bom seria se fosse você. Mas não tem sido. Já faz algum tempo que não é você, e é nisso que eu fico pensando...

Você ainda pensa em mim, ou as vezes em que tem cruzado por mim na rua são indiferentes? Comparadas aos dias em que estávamos ansiosos para nos encontrarmos... Lembra da primeira vez que nos vimos? Do sorriso largo que eu inspirei em você? E do quão bobo eu parecia ser, tentando chamar a sua atenção? Eu sinto falta de ser bobo, ao contrário da infâmia sarcástica na qual eu estou habituado a viver. A verdade é que, quando você surgiu, o mundo parecia estar recomeçando. E todos os lugares pelos quais passei estavam subitamente reabertos para serem experimentados. E os momentos que eu queria que fossem inesquecíveis, mas que desperdicei com as garotas erradas, poderiam ser revividos com você.

Era isso que eu mais vi em nós: o recomeço. Aquela vida que poderia ter sido e não foi, mas que agora – finalmente! – poderia ser. E eu não sei se foi o calor do momento que te deixou esperançosa, mas ao compartilhar contigo a promessa que fiz sobre nunca deixar o mundo vencer, você aceitou lutar comigo. Em algum momento isso foi verdade – eu despertei algo em você, fui diferente dos outros caras que você já havia conhecido – ou você estava só tentando ser gentil? Isto é, até o momento em que decidiu não ser mais, e foi embora. Sem explicação, sem grandes gestos, e sem se despedir.

A última coisa que eu tive capacidade de dizer foi para jogar fora as flores que eu havia te dado. Talvez tenha sido fácil para você, que dizia nunca ter ganho flores antes, logo o desapego não levaria tanto tempo assim. Mas para mim, que nunca deu flores a ninguém antes, tem sido mais difícil do que eu esperava. Só de pensar em dar flores à alguém de novo, eu opto por não plantar expectativa alguma. Por ninguém. Sobre nada.

Eu me sinto quebrado. Mais do que o de costume. Menos do que eu estava pronto para lidar. Eu me odeio por estar cercado de rostos em cada multidão que atravesso, e não conseguir parar de procurar o seu. E me odeio mais ainda quando eu a encontro, e percebo o quão sem reação você consegue me deixar. Sem saber para onde ir, ou o que dizer, ou como fugir de tudo que me assombra.

Eu me odeio por ter admitido que queria amar você. E me odeio por reconhecer que é só isso que restou. Espero, do fundo do meu coração, que você tenha jogado fora as flores. Se em algum momento eu signifiquei alguma coisa para você, esse é o mínimo que poderia fazer por mim. Não deixe que o gesto mais significativo que eu já fiz por alguém em muito, mas muito tempo, se torne um souvenir da última vez em que acreditei que as coisas poderiam dar certo para mim. Jogue fora do mesmo jeito que fez comigo.

O lado bom de não saber viver em meios termos, limbos ou purgatórios, é ser esperançoso diante do vazio que resta no meu coração. Porque eu ainda acredito em mim mesmo o bastante para sair por aí e tentar preencher esse vazio de novo.

Acho que já passei por todas as fases possíveis. Os dias atordoados, as noites em claro. As músicas que evitei ouvir por um tempo, e as atualizações sobre você que afastei dos meus olhos. A raiva por ter sido dispensado sem nunca realmente saber o motivo, e a tristeza que pesa na minha voz toda vez que repito o seu nome para algum amigo que não agüenta mais me ouvir falar disso. Dia desses até criei a coragem de passar por você sem fingir estar olhando para outra direção, porque é inevitável: nós ainda nos encontraremos por aí, por mais que eu queira me iludir do contrário. E agora que me atrevi a arriscar o impensável – admitir por escrito o que eu ainda sinto – talvez eu esteja pronto para dar o verdadeiro ponto final nisso.

Eu te desejo amor, mesmo que não possa ser o meu. Espero que fique bem, porque sei o quanto você se sente insegura e confusa sobre a vida. Quero que seja feliz, por mais tempo que os passatempos aos quais você se entrega são capazes de te distrair. E, enfim, desejo tudo isso a mim mesmo também. Talvez tenha sido melhor partir, aqui e agora, do que me decepcionar no futuro. E se por acaso esse tenha sido o motivo da sua desistência, eu o aceito.


Eu sou muito mais feliz quando acredito que o amanhã será melhor. Quem sabe, na próxima vez, a primavera dure. Obrigado por me mostrar que ainda sou capaz de cultivar flores.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O outro lado da crevasse


Em 1991, Gaspar LeMarc, um explorador francês, estava no meio de uma jornada pelas cordilheiras dos Alpes quando uma nevasca o separou de sua equipe e subitamente causou um acidente que o fez cair dentro de uma crevasse – uma abertura natural entre geleiras, cuja profundidade aproximadamente estendia-se até 90 metros abaixo do chão. Quando recuperou a consciência, Gaspar percebeu que sua perna estava severamente ferida, deixando-o impossibilitado de escalar de volta à superfície. Ao lutar contra todos os instintos naturais que possuía, e ao obrigar-se a aceitar a pior alternativa possível no momento, Gaspar decidiu que não havia outro meio a não ser se aprofundar cada vez mais dentro da crevasse e da escuridão que a dominava. Depois de quase dois dias, Gaspar conseguiu encontrar uma saída do outro lado. Ao retornar para a base, Gaspar reencontrou sua equipe auxiliar que estava prestes a abortar todas as tentativas de resgate que já haviam procedido, conforme o código de honra dos escaladores. Diante deles, Gaspar anunciou que, apesar de estarem a ponto de desistir e deixá-lo para trás nas cordilheiras e em suas memórias, eles estariam fazendo a coisa certa. Diante de uma nevasca, conforme o código, é cada um por si, e um homem que por acaso fica para trás, deve ser deixado para trás, para que a segurança do grupo seja mantida.

Antes que você tente pesquisar a veracidade desta história, permita-me poupar o seu tempo: é mentira. É uma história fictícia que eu descobri dentre uma das minhas diversas maratonas de seriados em que eu me perco para compensar pela ausência de uma vida pessoal, amorosa, ou qualquer outra que não inclua uma escala impiedosa de trabalho. Uma que insiste em não me dar sossego, não só em horário comercial, mas em qualquer outro horário socialmente aceitável que me permita ser readmitido à sociedade como um ser ativo, solteiro e contribuinte de impostos que preza pela vigência de convenções políticas. Como a Copa do Mundo, a Política de Economia Nacional, e o Dia dos Namorados. O que também explica por que eu ando tão ausente da vida noturna Iguaçuense, e tão online nas redes sociais.

Mas o meu objetivo com esta história é similar ao que ela alude: como lidar com problemas ou situações aparentemente impossíveis, ao ponto de nenhuma equipe de apoio se dar ao luxo de voltar para tentar uma missão de resgate. Porque, assim como eu imagino que seja dentro da comunidade de escaladores, na zoeira da vida também é cada um por si. E alguém que por acaso tropeçar e cair, será impiedosamente deixado para trás. Apesar de todos os aspectos bio-psico-sociais envolvidos, das normas morais que nos são passadas de geração para geração, e de qualquer bom senso instintivo que seja desperto em cada um de nós, não há argumentos contra o fato de que, quando outros caem, estamos mais interessados em continuar seguindo em frente. Especialmente para encontrar outras pessoas com quem a gente possa comentar sobre como a vida do Fulano anda mal, e como ele provavelmente vai morrer congelado naquela montanha de problemas dele. É a natureza humana no seu pior, porém, no seu normal.

Acho que todo mundo, em algum momento da vida, já chegou em casa cansado depois de um dia aparentemente interminável e abominável, e pensou “Eu preciso fazer alguma coisa com isso...” E decidiu que mudar seria a solução, e que daquela noite em diante, depois de abrir uma garrafa de vinho (ou qualquer outra bebida que simbolizasse o autotriunfo do seu insight), brindou consigo mesmo e jurou silenciosamente que “Amanhã será um novo dia, para um novo eu!”. E aí acordou de ressaca, saiu de casa meio sonolento, tropeçou na velha rotina e caiu na crevasse dos seus problemas mais uma vez. E até aí, tudo bem. Estamos vivos, logo, fadados ao acaso, ao imprevisível e, invariavelmente, à sentença terminal dos nossos próprios padrões. Porque instituir uma mudança da noite pro dia é difícil – talvez até improvável, dependendo do grau do seu desespero silencioso. Por mais que você se sinta cheio de problemas, eles não irão desaparecer na manhã seguinte só porque você subitamente decidiu que eles não possuem mais importância que tinham quando você passou no mercado para comprar mais vinho antes de chegar em casa em uma noite solitária de inverno.

Foi então que, ao voltar para casa em uma noite dessas, eu me lembrei daquela história fictícia e do quanto – pelo menos, dentro da lógica do episódio daquela série – aquilo sinceramente fazia sentido. Se quanto mais você insistir em confrontar os seus problemas, sem nenhuma estratégia para resolvê-los, mais eles ganham força e acabam com a sua paciência, porque não fazer o contrário? Claro que não é fácil; admitir derrota, cansaço ou incapacidade vai contra tudo o que eu visceralmente acredito. Mas talvez seja o que esteja me impedindo de encontrar uma saída mais viável. Talvez, no final das contas, seja a chave da minha sobrevivência. Às vezes, na vida, para seguir em frente é preciso voltar atrás. Às vezes para subir aos céus, é preciso descer até os confins do inferno, nem que seja para pegar impulso. E assim como o imaginário Gaspar, às vezes quando alcançar a superfície parece impossível, talvez o melhor jeito de rever a luz seja ao entregar-se para a escuridão da crevasse, até escapar pelo outro lado. E é exatamente isso que eu vou fazer.

Que se danem as contas, os amigos que não vejo há meses, a cidade em que parece cada vez mais longe de que eu retorne, o amor que talvez nunca chegue, e a sanidade cuja qual eu gosto de pensar que ainda tenho algum controle. Eu vou me arrastar até o limite, indo contra tudo o que eu sempre acreditei que fosse o ideal, o certo, o justo para mim, e vou parar de lutar contra a escuridão da crevasse, da qual o mundo real está incomensuravelmente cheio. E vou encontrar a felicidade do outro lado, ou morrer tentando. Metaforicamente, é claro. Porque eu tenho uma faculdade para terminar, uma conta da Renner para quitar, um amor que dure o resto da vida para encontrar, e um punhado de seriados para rever em Setembro.

Antes de traçar qualquer estratégia, é sempre bom rever as prioridades.

*Escrito em 18 de junho de 2014, mas os velhos padrões ainda me assombram.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A culpa é minha



Eu sinceramente acredito que existe algo a ser dito sobre as coisas que não fazemos. Só não sei ao certo o que, porque dizem que o que não foi feito também não vale a pena ser comentado. Se não aconteceu, não significou nada. Mas aí entram as coisas que acontecem e que, vez por outras, também sofrem pela falta de um significado, um sentimento que as mantenha vivas em nossa memória. Então eu não sei. Particularmente eu gosto de acreditar que tudo que é capaz de me causar algum tipo de impressão marcante, também vale a pena ser discutido. E na falta de alguém para me ouvir, acredito que vale a pena ser escrito.

Talvez a poesia seja o exílio dos arrependimentos, ou o porto-seguro dos sentimentos ocos. Tudo parece muito bonito, muito apaixonante, muito sintético, mas sem muita utilidade. Isto é, a não ser para indicar a leitura à alguém que está sofrendo por algo que não sabe como lidar direito. Poesia serve para dar forma a estes sentimentos, como um porta-retratos que enfeita uma estante com um momento que decidiu-se ser inesquecível. Às vezes ser entendido é tudo que a gente precisa. Seja por alguém que nos ouça, pela poesia que nos traduza, ou por qualquer outra válvula de escape pela qual você permita expor as marcas que a vida te causou. Sejam elas boas ou ruins, ainda deixo um espaço separado especialmente para as coisas que eu não fiz que, por não terem acontecido, também não conseguem se encaixar em apenas uma categoria.

Porque tudo que não acontece, tem um motivo. Ou no mínimo, uma desculpa. E a minha desculpa de hoje vai para você, que às vezes dedica um pouco do seu tempo para mim, e nem sempre consegue o que esperava em troca. Às vezes eu penso se sou uma pessoa ruim com uma vida complicada, ou apenas um cara normal com uma capacidade extraordinariamente criativa para elaborar desculpas plausíveis que cubram as fraturas das minhas ações. Ou, então, a fratura causada pela falta delas. A verdade é que eu penso demais. E por pensar demais, mais vezes do que deveria, eu faço... Nada. A não ser que justificar minha falta de movimento conte como uma ação – não deixa de ser um movimento defensivo, e deveras cansativo. Tanto, que às vezes até eu preciso questionar os limites das minhas contradições, e refletir se talvez não seja mais fácil fazer as coisas em vez de justificar porque não às fiz, ou em vez de delegá-las a terceiros, como a Vida, o Destino ou Amor. Como se a vida, o destino e o amor já não estivessem ocupados demais.

Mas tudo isso não passa de mais um devaneio infame, mais uma desculpa, que só serve para camuflar o que eu realmente gostaria de dizer: eu sinto muito. Sinto muito por não ter acreditado em você. Sinto muito por te ignorar, ou tentar te bloquear da minha vida e impedir que você sequer soubesse a quantas eu ando, porque custei a deixar de duvidar que você se importa. Sinto muito por muitas vezes não medir as minhas palavras, e pela dor que elas são capazes de causar. Sinto muito por minhas dúvidas terem feito com que você mesma se questionasse. Sinto muito por você ter se sentido sozinha. Sinto muito por ter dito que eu não era o cara para você, em vez de simplesmente ter feito algo a respeito para que eu me tornasse então esse cara. Sinto muito por ter convencido você a desistir. A culpa não é sua, nem da vida, do destino ou do amor. Muito menos, das estrelas. Não. A culpa é minha. E é algo pelo qual eu preciso começar a me responsabilizar, antes que as minhas contradições acabem comigo de vez. Mas eu sei que não chegará a isto. Senão, o que seria das minhas poesias?

Este sou eu: dando dois passos para trás, para dar um adiante. Se me perco, é só porque parei para pensar em escrever alguma coisa. Às vezes fica bonito, às vezes compensaria mais ir em frente. Bom... Vivendo, escrevendo, amando e aprendendo.

*Escrito em 9 de junho de 2014, mas pelo visto eu ainda não mudei.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A complicada simplicidade


Você me dispensou. Tudo bem, eu entendo. Não é nenhuma novidade. A essa altura, eu nem leio mais as desculpas na íntegra. Só passo o olho nas já famosas palavras-chave – medo, ansiedade, indecisão – ou nas expressões infames do tipo “não sei o que quero da minha vida agora” ou “não estou pronta para um relacionamento sério”, e sigo em frente. Isto é; eu entendo que preciso seguir em frente. Mas por um instante – um longo e aparentemente arrebatador instante – eu realmente me sinto sem direção. Como alguém que estava tranquilamente em direção a um horizonte, acreditando que dias melhores estavam adiante, só para ser surpreendido por um penhasco. E a queda é certa, derradeira, finita.

Mas cá entre nós, e eu não quero ser nenhum estraga-prazeres, a verdade é que eu não entendo. Sabe por que? Porque eu sei o que vai acontecer agora. Não exatamente agora, nem amanhã, nem semana que vem. Mas é o que vai acontecer, porque essa história não é original nem imprevisível. Depois de um tempo, de algumas decepções, e do entardecer dos vinte e poucos anos, as coisas e as pessoas se tornam invariavelmente previsíveis. É como colocar a cabeça para fora da janela em uma manhã fria e avistar uma pequena nuvem escura pairando no céu. Você já sabe o que vai acontecer, e não tem mais o direito de reclamar ao decidir sair de casa sem um guarda-chuva.

Você me dispensou. Tudo bem. Eis o que vai acontecer agora: talvez você ainda se lembre de mim em alguns momentos no dia, como quando algo engraçado surgir na sua linha do tempo do Facebook e você se der conta que é exatamente o tipo de coisa que eu mandaria para você. Ou quando alguém disser uma palavra em especial que te faça perceber o quanto era algo que eu sempre costumava dizer. Mas isso passa, dia após dia, e eventualmente eu vou desaparecer. Você vai se aventurar em outros lugares, vai conhecer outras pessoas, vai provar outros beijos, vai sentir o êxtase da liberdade que você pensou que estava protegendo, e vai suspirar aliviada por ser dona da própria vida. Autora das próprias histórias. Responsável pelas próprias decisões, sem oferecer satisfações ou desculpas a quem estiver por perto. Estará livre, plena, satisfeita. E eu entendo.

Você me achou estranho. Apressado. Ansioso. Desesperado. Complicado demais para dar conta. Do tipo que exigiria satisfações se você mesma não as desse logo de cara. O tipo que cobraria estabilidade, pontualidade, fragilidade. O cara que a princípio parecia ser tão incrível e irresistível, com os dotes domésticos e as palavras certas nos momentos certos. Mas seria o mesmo cara que teria preguiça de ir àquela festa, ou de se socializar com os seus amigos, ou que faria questão dos próprios gostos em vez dos seus. Controlador, exigente, impiedoso. O tipo que faria sua liberdade deixar de existir, em troca de confortos passageiros em noites friorentas. O cara divertido para um encontro, mas não para dois. O homem para matar as vontades que você esconde do mundo até o anoitecer, mas que te deixaria arrependida no dia seguinte. Talvez este tenha sido eu, talvez não. Pode ser exagero, mas nem tanto. Afinal, você ainda está aí, acompanhando. E sabe por que? Porque não acabou.

Este é o interlúdio do silêncio. O cotidiano distante. As visualizações escondidas em redes sociais distintas. A vontade de perguntar como eu estou, abafada pelo medo de ser maltratada pela frieza que você plantou em mim. Porque eu não sou fácil, dócil ou tão compreensivo assim em situações normais. Nas adversas, por fim, sou alguém a ser evitado. O homem dos seus sonhos, de longe. A razão da sua partida, de perto.

Você ainda pensa em mim. No que poderia ter sido. Nos jantares à luz de velas. Nas conversas sussurradas debaixo do cobertor. Nos beijos impensados. Na minha mão na sua cintura. Meu amor na sua vida. Mas a qual custo? A complicada simplicidade tem seu preço. O mundo é pequeno demais para quem você quer ser agora, e quem você sonha em ser amanhã.

E é por isso que eu ainda estou aqui. Escrevendo, estranhando, escutando o que você tem a dizer, sem realmente dizer nada. Sentindo a sua presença, sem conseguir avistá-la ao meu redor. Sabendo que você sente a minha falta, mesmo sabendo que foi você quem me disse adeus. Eu sei de tudo isso, meu bem. Lembra de quando você era o meu bem? Eu me lembro disso também.

A solução é bem simples. Tão simples quanto a nossa vida poderia ser, caso ousasse abrir mão dos piores clichês do mundo – o medo, a ansiedade, a incerteza – para realmente arriscar sentir sua pele arrepiar por algo que você só tem coragem de sonhar na maior parte dos dias. Eu estou aqui. Você quer sentir o meu beijo de novo? Quer andar de mãos dadas comigo? Quer descobrir o quanto a complicada simplicidade, na verdade, não é tão complicada assim?

Demorou muito, mas muito tempo, mas eu aprendi a minha lição. Não cabe a mim convencer você de que nós valemos a pena. Cabe a quem interessar possa tomar a iniciativa – só uma, pra variar – e confiar na esperança de que alguns sonhos podem se tornar realidade. Talvez eu não seja o amor da sua vida – foi o que eu disse, logo no início – mas por que não tentar, não é?

Era só isso que eu tinha pra dizer. Decida se era pra você ou não.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O dia depois de amanhã


Das seis da manhã à meia-noite, com raras exceções. Tem dias em que consigo me refugiar em devaneios menos preocupantes, e noites que quase não tenho meu sono interrompido por algum medo do futuro. Mas quando a rotina não falha, este é o horário em que eu vivo ultimamente; das seis da manhã à meia noite. E entre trabalhar, namorar, estudar, ser parte de uma família, beber com os amigos e evitar ter um completo colapso nervoso, tenho que ser sincero: sobra preocupação, ansiedade, medo... e falta tempo.

O que aconteceu?

***

Era tudo o que eu queria. A carreira, o amor e um despertador programado no meu celular para me acordar todas as manhãs. Para soar a largada da corrida de mais um dia. Algo que, desde que cheguei a Foz do Iguaçu, não era um aplicativo muito utilizado. Ainda faltava uma razão para acordar cedo. Coisa que, infelizmente, ficou para trás durante a mudança.

Mas foi exatamente por isso que me mudei. As razões pelas quais eu levantava da minha cama de manhã, naquela vida, não me satisfaziam mais. E era uma vida bem parecida com esta, se não fosse pela sensação inquietante de que algo estava faltando...

Faltava estar feliz.

Talvez fosse por isso que eu passei tanto tempo daquela vida, escrevendo sobre o amanhã. Sobre os erros que eu não queria mais cometer. Os lugares que eu queria conhecer. O amor que eu queria viver... Tudo parecia estar tão distante. Tão longe da minha realidade. Até o dia em que eu decidi realmente ir à luta por tudo que eu pensava que queria, e que não estava ao meu alcance. E nada é mais aterrorizante, desconcertante, angustiante e maravilhoso, do que finalmente criar coragem o suficiente para tentar alcançar a vida que você quer ter.

Demorou um ano. Com inúmeras frustrações, desabafos, decepções e pessoas erradas, mas eu consegui. Eu finalmente faço parte de Foz de Iguaçu, completo com motivos para acordar e dormir cedo.

Por que eu não me sinto feliz então?

***

Nós temos essa mania incessante de sempre querer mais do que podemos ter. A psicologia nos define como seres incompletos, em constante movimento, e talvez isso explique este instinto de estar sempre à procura de algo a mais. Mas até que ponto a ambição pelo amanhã supera a harmonia de hoje?

Nós pensamos que queremos algo, e nos focamos nisso até conseguirmos. Às vezes o que queremos não é o que precisamos, e raramente as consequências disso passam pela nossa cabeça. Particularmente, eu costumava pensar que todo o tempo que passei escrevendo sobre o amanhã, foi por esperança. Não porque estava necessariamente desesperado por dias melhores, mas porque havia algo de bom em fantasiar sobre o que mais estaria por vir no dia seguinte. Como a inquietação de um leitor frenético, que não vê a hora de virar mais uma página para descobrir qual rumo a história que está lendo irá tomar. Na vida é parecido, mas nós somos os escritores. A ansiedade está em descobrir quais possibilidades estarão ao nosso alcance na próxima vez que chegarmos ao escritório, ou quando revermos os nossos amigos, ou quando abraçarmos o nosso amor. O mistério do novo. A sombra do desconhecido.

***

Ou talvez o único motivo pelo qual eu não consiga mais vislumbrar tanto a magia e o encanto do amanhã, é porque ainda estou tentando me acostumar a acordar cedo de novo. E ninguém pensa direito quando está com o sono atrasado. Seja lá o que for, eu só precisava mesmo escrever alguma coisa. Assim como a vida, o importante não é o desfecho, mas as histórias que a gente cria.

E se você tiver sorte, poderá tentar de novo amanhã.